segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Ler é poder

Um poema magnífico de Carlos Tê a que a voz de Rui Veloso deu o sentimento de todos aqueles que, não sabendo ler, "sentem o escuro dentro de si, se sentem pederneira, ficam sentados à soleira a ouvir os ruídos do mundo".
Já dizia o poeta "Há mais luz nas letras do alfabeto que em todas as estrelas do universo."

A gente não lê

Ai Senhor das Furnas
Que escuro vai dentro de nós,
Rezar o terço ao fim da tarde,
Só pr'a espantar a solidão,
E rogar a Deus que nos guarde,
Confiar-lhe o destino na mão.

Que adianta saber as marés,
Os frutos e as sementeiras,
Tratar por tu os ofícios,
Entender o suão e os animais,
Falar o dialecto da terra,
Conhecer-lhe o corpo pelos sinais.

E do resto entender mal,
Soletrar assinar de cruz,
Não ver os vultos furtivos,
Que nos tramam por trás da luz.

Ai senhor das furnas,
Que escuro vai dentro de nós,
A gente morre logo ao nascer,
Com os olhos rasos de lezíria,
De boca em boca passando o saber,
Com os provérbios que ficam na gíria.

De que nos vale esta pureza,
Sem ler fica-se pederneira,
Agita-se a solidão cá no fundo,
Fica-se sentado à soleira,
A ouvir os ruídos do mundo,
E a entendê-los à nossa maneira.

Carregar a superstição,
De ser pequeno ser ninguém
Mas não quebrar a tradição
Que dos nossos avós já vem.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

É Mia Couto!

Origatório ler!
(mesmo sabendo que estou a infringir o 1º direito inalienável do leitor, segundo Daniel Pennac)

Mia Couto: Perguntas à língua portuguesa
Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o vôo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem, é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem.
Meu anjo da guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica.
Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulburbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
A diferença entre um às no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
O mato desconhecido é que é o anonimato?
O pequeno viaduto é um abreviaduto?
Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente?
Quem vive numa encruzilhada é um encruzilheu?
Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
Tristeza do boi vem dele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
Onde se esgotou a água se deve dizer: “aquabou”?
Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
Mulher desdentada pode usar fio dental?
A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: “finanças”?
Um tufão pequeno: um tufinho?
O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
Em águas doces alguém se pode salpicar?
Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocamos essoutro português - o nosso português - na travessia dos matos, fizemos que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas - o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

2009 - Ano Internacional da Astronomia

O Ano Internacional da Astronomia 2009, uma iniciativa a nível mundial, organizada em Portugal pela Sociedade Portuguesa de Astronomia, apresenta diversas actividades de indiscutível interesse, entre as quais:
* Exposição “Da Terra ao Universo”
* E agora eu sou Galileu
* Noite da Astronomia – noite das estrelas
* “Sidereus Nuncius”
* Kit do Astrónomo
* Série de Selos AIA2009
Tendo como público-alvo as escolas, merecem destaque:
* Palestras e sessões de observação em escolas
* Curso de Formação para Professores
* Concurso Astronomia Artística
Para mais informações:

A propósito, sabiam que…
* Se o Sol morresse de morte súbita, nós só o saberíamos 8 minutos e 15 segundos depois? Isto porque a luz leva esse tempo a chegar até nós.
* Estima-se que a nossa galáxia, a Via-Láctea, seja composta por aproximadamente 200 biliões de estrelas.
* As estrelas não ”piscam”. Nós vemos as estrelas a piscar por causa da turbulência da atmosfera terrestre que interfere na luz emitida por elas.
* “Planeta” em grego significa “errante”, “viajante”. Os gregos da Antiguidade denominaram estes corpos celestes de planetas porque os observavam "viajando" entre as estrelas “fixas”.
* Se o Sol fosse comparado a uma bola de basquete, Júpiter seria uma bola de golfe; Saturno, uma bolinha de ping-pong; Urano e Neptuno, berlindes; Plutão, seria menor que a metade da cabeça de um alfinete.
* Se morássemos em Neptuno, nunca faríamos anos, pois um ano é o tempo que o nosso planeta leva para dar a volta ao Sol, e Neptuno leva 165 anos terrestres para fazer essa trajectória.

Fiquem agora na companhia de Olavo Bilac.

Ouvir as estrelas
"Ora direis ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora! "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las:
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Congresso Internacional de Promoção da Leitura

A Casa da Leitura, um projecto da responsabilidade da Fundação Gulbenkian, organizou recentemente, nos dias 22 e 23 de Janeiro, o Congresso Internacional de Promoção da Leitura. Foram dois dias de debate sobre as políticas, as estratégias e os métodos para a formação de “leitores competentes” que possam ler o mundo.
Nos quatro painéis – Literatura para a Infância e Formação de Leitores, Estratégias de Leitura e Compreensão Leitora, Projectos de Promoção da Leitura e A Leitura em Debate -, conferencistas e oradores, nacionais e estrangeiros, falaram sobre leitura, literatura, leitores, mediadores de leitura, bibliotecas, contadores de histórias, …
António Nóvoa, António Prole, José Barata-Moura, Eduardo Marçal Grilo, Teresa Colomer, Pedro Cerrillo, Fernando Savater, Pep Duran, Galeno Amorim, Michel Fayol, Peter Hunt, Lawrence Sipe, falaram e certamente encantaram mas, mais do que isso, alertaram, questionaram, provocaram, partilharam receios e preocupações, sucessos e insucessos.

Não resisto a deixar-vos aqui algumas reflexões sobre Leitura e Leitura Literária que retirei dos documentos que foram entregues e que, diga-se, estão à vossa disposição.

“As crianças tornam-se leitores ao colo dos pais.” – Emilie Buchwald

“Quando olho para trás, fico novamente impressionada com o poder vital da literatura. Se eu hoje fosse uma jovem a tentar encontrar-me no mundo, fazia-o novamente através da leitura, tal como fiz quando eu era jovem.“ – Maya Angelou

“Sonhei algumas vezes que, quando o Dia do Juízo amanhecer e os grandes conquistadores, juristas e estadistas vierem receber as suas recompensas, o Todo-Poderoso se voltará para S. Pedro e dirá, quando nos vir aproximar com os livros sob os braços “Olhai, estes não precisam de recompensa. Nada temos para lhes dar. Eles amaram a leitura.” – Virginia Woolf

E agora deixo-vos com Fernando Savater.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Lord Byron

Lord Byron (1788 – 1824)

A 22 de Janeiro, nasce George Gordon Byron, aquele que viria a ser um dos mais notáveis poetas ingleses e uma das figuras mais influentes do Romantismo.
Durante a sua passagem por Portugal, deixou-se encantar pela Vila de Sintra cuja beleza é exaltada em várias passagens da sua obra.

Eis algumas imagens que explicam o encantamento de Byron (e também o nosso) por Sintra.
[1] http://www.flickr.com/photos/32224743@N07/sets/72157608766782722/
[1]
http://www.flickr.com/photos/32224743@N07/sets/72157608770447953/

E foi este fascínio que, há tempos atrás, nos levou, a mim e à Margarida Toscano, a fazer este trabalho no âmbito da formação “A Biblioteca Escolar e a web 2.0”.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Brincar com a lua

Vejam, porque é fantástico! Aliás, como seria de esperar do João Camacho que, à beleza das imagens, juntou um som maravilhoso!
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domingo, 11 de janeiro de 2009

Quand on n'a que l'amour

Sem razão especial, mas são palavras que quero recordar convosco.



"Alors, sans avoir rien
Que la force d'aimer
Nous aurons dans nos mains, ami
Le monde entier."

Jacques Brel

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Concurso Inês de Castro

O Concurso Inês de Castro é uma iniciativa conjunta do Plano Nacional de Leitura e da Fundação Inês de Castro e destina-se a premiar sítios /blogues concebidos e elaborados por alunos dos 2º e 3º ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário.
As escolas podem apresentar a concurso sítios/blogues criados por um ou mais alunos, sendo necessário o acompanhamento de, pelo menos, um professor.
O tema central dos trabalhos a apresentar a concurso é O Romance de D. Pedro e D. Inês de Castro.

Para conhecer o regulamento deste concurso, consulte:

http://www.min-edu.pt/np3/2616.html

Linda Inês

Razões políticas levam o rei D Afonso IV a ordenar a execução de Inês de Castro, amante do seu filho D. Pedro. A 7 de Janeiro de 1355, três elementos da nobreza, Álvaro Gonçalves, Diogo Lopes Pacheco e Pero Coelho, aproveitando a ausência de D. Pedro numa caçada, dirigem-se ao Paço de Santa Clara, em Coimbra, onde a bela Inês se encontra “posta em sossego” e esfaqueiam-na até à morte.
Após a morte de Inês, D. Pedro mandou perseguir os assassinos de D. Inês, que foram apanhados e executados. Mais tarde, D. Pedro mandou construir dois túmulos, um para ele e outro para a sua amada , que se localizam no Mosteiro de Alcobaça.
Camões imortaliza, n'Os Lusíadas, os amores de Inês e D. Pedro, na estrofe CXX do Canto III:

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saüdosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Bicentenário do nascimento de Louis Braille

Em 2009, celebra-se o Bicentenário do Nascimento de Louis Braille, cidadão francês nascido em 4 de Janeiro de 1809, inventor de um método de leitura e escrita para cegos que viria a tomar o seu nome. Este método, que se foi adaptando à generalidade das línguas e grafias, permitiu aos deficientes visuais aceder à escolarização normal, à informação e a outros bens culturais, contribuindo de forma decisiva para a sua integração social.
Dado o significado desta efeméride, celebrada em todo o mundo, a BNP, em articulação com outras entidades, elaborou um programa de comemorações que decorrerão ao longo do ano, com a colaboração de diversas personalidades e instituições, destacando-se: Casa da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, Gabinete de Referência Cultural - Pólo Interactivo de Recursos Especiais (Direcção Municipal de Cultura da Câmara Municipal de Lisboa), Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) e Direcção Regional de Educação de Lisboa.

A sessão solene de abertura das Comemorações terá lugar na Biblioteca Nacional de Portugal, no dia 5 de Janeiro de 2009, pelas 10h00, sendo presidida pela Secretária de Estado da Cultura. Nesta cerimónia, o Professor Doutor Boaventura de Sousa Santos dará uma Conferência sobre Louis Braille e a sua obra.

Nesta data, serão inauguradas as novas instalações da Área de Leitura para Deficientes Visuais (ALDV) da BNP. Este serviço passará a dispor de melhores condições para acolher o público, com uma nova sala de leitura, e os seus serviços técnicos. Todas as áreas de trabalho interno serão integradas num espaço exclusivamente dedicado aos deficientes visuais, incluindo o depósito das colecções, bem como com uma logística mais adequada para os trabalhos de digitalização e impressão Braille, assim como para as actividades de leitura e gravação visando a preparação de livros sonoros.