segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Carnaval

Beleza e sobriedade
Imagens de um Carnaval vivido de forma diferente e a provarem que o Carnaval não tem de ser celebrado com vulgaridade e mau gosto.

1 comentário:

Anónimo disse...

A MÁSCARA DE CARNAVAL MAIS INOVADORA QUE CONHECI

Carnaval. Festa da alegria, da folia , da transfiguração e também da transgressão…

Vale quase tudo! E, por isso mesmo, sinto sempre, por esta altura do ano, um certo deslumbramento e muita animação!

Nunca me esqueço de um certo episódio, bem carnavalesco, que já remonta há duas décadas e, que por ser tão insólito, me ficou na memória …

Ocorreu durante um passeio, organizado pela escola onde iniciei a minha carreira de professora ( por sinal, uma escola deste nosso concelho e que, segundo contam colegas que por lá passaram, está bem diferente da imagem que conheci ). Por ter sido a primeira escola onde fui colocada e comecei a leccionar, de alguma maneira os meus dois anos de vivências por lá tiveram algo de encantamento. O episódio que passo a contar não fugiu à regra…

Havíamos ido num passeio até Sintra. Era um passeio de escola, sem alunos. Só para professores e funcionários. Os participantes, cerca de umas quinze a vinte pessoas no total.

Subimos os caminhos da serra, onde fizemos um tranquilo e, ao mesmo tempo, revigorante piquenique ao ar livre, no chamado Parque da Liberdade, nome adequado e que vem muito a propósito ao que se segue.

Estava-se, então, no Carnaval. E alguns de nós, jovens professores recém-licenciados, iam mascarados. Guardo ainda uma foto onde ficaram registadas várias dessas máscaras de gente nova, fresca e jovial. Por exemplo, o colega de Educação Visual ia de homem do circo, com camisola às riscas horizontais e largas, vermelhas e brancas; fato igualmente às riscas, mas desta vez de riscas finas e cinzentas, em fundo branco, com o particular de as calças serem curtas; de gravata florida, com sapatorros e cartola pequena e amarrotada . A colega de Ciências Naturais trajava à menina de infantário, de bibe aos quadradinhos, totós com lacinhos e sardas nas bochechas rosadas. Havia ainda uma colega fantasiada de florista ou de Maria Papoila ou de ceifeira; a colega de Educação Física estava disfarçada de cozinheiro maluco, com narigueta postiça, óculos escuros e o seu tão característico chapéu armado, alto e imaculadamente branco. Enfim, um longo, criativo e diversificado desfile de máscaras. Até aqui nada de especial a assinalar. Mas, no meio de todas estas, houve uma máscara inesquecível e verdadeiramente bizarra, que surgiu com mais impacto e que chamou a atenção de todos. Foi a fantasia de uma auxiliar de acção educativa ( nessa altura ainda só chamada de contínua ), que era também a esposa do então chefe da secretaria da escola.

Estávamos todos, professores e funcionários, sentados num muro baixo, no tal parque da serra, de nome Parque da Liberdade, já bem almoçados e em amena cavaqueira, quando, de repente, para nosso pasmo, a tal senhora, mascarada de homem, decide abrir a braguilha e pôr a arejar um corpo estranho. Pusera-se, então, a dar festinhas a uma salsicha, daquelas pequenas e enlatadas, de uma marca qualquer ( não é relevante; porém, ela depois havia de esclarecer que nãopassava de uma mera salsichinha Isidoro. Eu fiquei em pleno êxtase e não fui a única. E ela, divertida da vida, a soltar umas risadinhas malandras e sempre a dar festinhas… Admirei-lhe a audácia e o atrevimento. Revelara-se a única com uma máscara realmente criativa, engraçada e original. E barata. Certamente tudo roupa do marido. Menos o apêndice. Daquelas que ainda hoje não se vendem nos bazares chineses nem nas lojas de trezentos. E eu, na minha santa inocência e pueril candura dos meus vinte e três aninhos, a invejar-lhe a coragem e a acompanhar os ágeis movimentos de dedos a mexer na maneirinha salsicha e ex-enlatada, a espreitar na “ janela “ das calças. Ah, acrescente-se um pormenor que a distinta senhora fez questão de clarificar. Ao improvisar esta sua máscara, ela ficara na dúvida se havia de optar por uma salsicha fresca de talho, por uma de lata ou por um chouriço de carne. A opção fora tomada, depois de ouvida a abalizada opinião do marido, seu juiz e conselheiro, e era agora ostentada, com muito orgulho, a todos ou, pelo menos, para quem quisesse ver.

Na verdade, foi uma tarde única…memorável, com muito boa disposição, alegria, diversão, não faltando as anedotas, mais ou menos picantes, à mistura. Uma tarde muito bem passada, em são convívio e amena camaradagem.

Esta foi uma das cenas do meu Carnaval de 1986 ou 1987 ( o distanciamento no tempo impede-me de precisar o ano, mas esse pormenor também não interessa nada).

Como era Carnaval, ninguém levou a mal.

E, como agora é Carnaval de novo, espero que também ninguém leve a mal. Aliás, não faz sentido. Até porque não foi minha intenção ferir possíveis susceptibilidades.

Como uma professora da minha Faculdade disse uma vez, dissertando acerca dos limites morais da escrita: “ Não podemos esquecer o que a escritora e investigadora Carolina Michaelis de Vasconcelos defendia a esse respeito - “ Em Literatura, ao contrário da vida, não pode haver preconceitos nem proibições… “

E eu acrescento ainda: brincar ao Carnaval é uma boa maneira de nos sentirmos vivos e alegres.

Afinal, que melhor forma existe do que o sentido de humor para minorar as agruras da vida?

Cristina Aguiar

Carnaval de 2009